Sorrio pouco, se quer saber. Na verdade, eu desacostumei com essa coisa de "sorrir", sabe? Pra que mostrar os dentes e fazer um barulho estranho pra alguém que, pra você, é mais estranho ainda? A vida não tem sido fácil, sabe como é.
Um dia desses me peguei olhando meu reflexo no espelho. Expressão fechada, olhos caídos, sobrancelhas retas, sorriso que não existia nem se eu forçasse. Um "Por quê?" ecoou dentro da minha cabeça e eu abri um pequeno e discreto sorriso no canto dos lábios. Eu estava me olhando ali, e não sabia porque diabos eu estava daquele jeito. Mas eu estava. Eu estava pra baixo. Estava assim... Sei lá. Nada parecia fazer diferença. Nem aquela imagem horrenda na minha frente poderia fazer diferença, quer dizer, aquilo é o que menos faria diferença.
Depois de perceber aquele sorrisinho amarelho no canto de meus lábios, voltei a expressão inicial. E vi uma lágrima surgir no canto de meus olhos. Eu não queria chorar. Eu nunca quero chorar. Mas eu precisava, algo ali, precisava ser posto pra fora. Algo ali, precisava sair. Eu precisava sair de mim.
A minha vontade, na verdade, era de socar aquele espelho e me ver toda despedaçada no chão, faria mais sentido. Sim, faria. E como faria. Um pouco do sangue dos cortes que iam surgir em meus dedos, daria o toque final em todos aqueles pedaços de mim. Mas eu não podia. Eu tinha algo maior a tratar. Eu tenho algo maior a tratar. A lidar. Eu tenho um "eu" bem grande dentro de mim precisando ser curado.
Sai do banheiro e percebi que havia chorado menos do que eu imaginava, na verdade, acho que foi apenas uma lágrima e só. Estou seca demais. Entrei para o meu quarto, fechei a porta, caminhei de um lado para o outro como se procurasse algo, me dei conta que estava procurando a mim. Resumi mentalmente: Estou enlouquecendo. Caminhei até a cama, deitei devagar e estendi a mão para desligar o interruptor da luz, o fiz. Fechei os olhos e descobri que as coisas só fazem sentido quando me desligo. De mim. De você. De nós e de todo o resto.
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